terça-feira, outubro 24, 2006

A derrota dos "mãos-de-tesoura"

A derrota dos "mãos-de-tesoura"

Luis Nassif posta em seu blog, hoje, um comentário-síntese, chamado “A
Volta do Pêndulo”, sobre o esgotamento do ciclo político que tinha como
pedra de toque a demonização dos gastos sociais no país.

O governo Lula é, em grande parte, responsável por essa virada, porque
alçou um novo protagonista à boca da cena política nacional: o eleitor
pobre, consciente de seus direitos. Esse discernimento veio para ficar.
Deve impor profundos ajustes nas estratégias partidárias, a partir de
agora. Mais que isso: promoverá saudável derrota a uma geração de
"mãos-de-tesoura", formada por especialistas e consultores que dedicaram
quantidades industriais de papel e bílis para inocular na consciência do
país - e conseguiram, em parte, basta ler a mídia - a falácia de que o
arrocho contra os pobres é um requisito para a redenção do capitalismo
brasileiro.

Queiram ou não as elites, considerem ou não atrasado o novo poder eleitoral
dos pobres, - como regurgita FHC - o fato é que terão que dialogar com o
seu discernimento de mundo e negociar com ele um enredo para o Brasil, a
ser repactuado a cada pleito.

Não dá mais para manter intocado o bordão da tal "lição de casa", uma senha
de sofisticação colegial para designar políticas destinadas a assaltar o
reajuste previdenciário, postergar a correção do salário mínimo, esmigalhar
verbas para saúde, rifar a habitação popular, esquecer o saneamento,
classificar como luxo o lazer da juventude nas periferias.

Assim se fez durante décadas. Assim se faz, ainda, em muitos estados
governados pelo tucanato. Leia, a propósito, a estarrecedora noticia
veiculada pela Agência Estado, hoje, sobre o novo arrocho no orçamento da
FEBEM, previsto pelo governo de São Paulo para 2007. É o tal "choque de
gestão".

O equilíbrio fiscal, a qualquer custo, é o andor dessa romaria
interminável, na qual o povo seguia de joelhos e os endinheirados, de
jatinho, helicópteros ou carrões de luxo - blindados, naturalmente, que ali
ninguém é bobo.

Lula mudou o jogo, ao trocar a cenoura podre dessa miragem de futuro por
políticas republicanas imediatas. Com todas as dificuldades herdadas e os
equívocos cometidos - em especial, na área monetária -, seu governo mostrou
ao Brasil que é possível crescer com simultânea redistribuição de renda.
Mais que isso, que o Estado tem papel insubstituível na coordenação desse
processo, caso contrário a desigualdade continuará a avançar em espiral
ascendente.

Esse é o verdadeiro divisor de água que catalisou o debate neste segundo
turno. O que está em jogo não é essa ou aquela privatização, mas uma
concepção de Estado pró-ativo na defesa dos interesses coletivos da
sociedade. Ou a redução do aparelho público uma agência desidratada de
poder e recursos - como quer o PSDB -, que transfere o destino da sociedade
ao arbítrio do mercado.

Ao fazer das políticas sociais um contraponto à lógica mercantil, Lula deu
aos brasileiros pobres uma capacidade de discernimento coletivo face aos
dois projetos em disputa nestas eleições. O resultado é um ponto final na
hegemonia ardilosa da narrativa ortodoxa sobre o nosso desenvolvimento.

A partir de agora, quem quiser disputar o poder neste país terá que
esquecer o blá-blá-blá dos "mãos-de-tesoura" que enriqueceram aconselhando
o Estado arrochar a vida dos pobres.

Diz Nassif:

"... Há limite para tudo. Mídia e mercado consagraram alguns soldados para
cumprir a missão de matar feridos em campo de batalha. São os que montam
suas planilhas e acenam com o fim do mundo, se não se cortarem benefícios
sociais. O inacreditável Fábio Giambiagi chegou ao auge, ao atribuir o
crescimento sub-haitiano brasileiro do ano passado ao déficit da
Previdência. Porque recorre a um besteirol desses? Porque nesses anos todos
essas afirmações ridículas eram tratadas com complacência porque o
pensamento dominante só tinha olhos para os benefícios sociais, como
maneira de desviar a atenção sobre os juros. Valia tudo, até cometer
asneiras desse quilate.

Esse jogo acabou. Hoje em dia, a equipe de cada presidenciável sabe que o
déficit da Previdência se resolve com crescimento; que a redução de
impostos só será possível com crescimento; e crescimento só se alcançará
com juros reduzidos.

Não se vai voltar ao período dos anos 80, de descalabro nas contas
públicas, de protecionismo absurdo. O grande músico e pensador Koelreutter
dizia que o mundo era como uma espiral: dava-se a volta, chegava-se sempre
ao mesmo lugar, mas alguns patamares acima.

O país aprendeu a respeitar a responsabilidade fiscal. Agora, está
reaprendendo os princípios de responsabilidade social..."

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